A cidade e sua ressignificação transitória do individuo público e privado

“Seria muito legal que manhana continúe, lo mejoren, lo hagan suyo… pero la rúa es la rúa, y nunca sabes qué va a acontecer”

1 – quem comanda a narração não é a voz: é o ouvido.

2 – jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve.

3 – Como as dúvidas do soberano nunca cessam, para o viajante inexiste descanso.

4 – Caminha-se por vários dias entre árvore e pedras. raramente o olhar se fixa numa coisa, e, quando isso acontece, ela é reconhecida pelo símbolo de alguma outra coisa: a pegada na areia indica a passagem de um tigre; o pântano anuncia uma veia de água; a flor do hibisco, o fim do inverno. O resto é mudo e intercambiável – árvores e pedras são apenas aquilo que são. As pessoas porém, transformam a si, e do si o mundo que se faz imergir, existir.

.: a vida em si, é imprevisível, pois somos gerados (em partes, somente em partes) por diversas coisas externas a nosso mundo interno… a rua, me parece representar isso muito bem, pois nela podemos perceber lugares em que não temos nenhum tipo de controle, o que estimula a reflexão sobre o bem privado, lugar onde podemos desenvolver nossas normas e regras, que devem ser vividas e cultivadas nesse espaço. Uma das principais características do que temos como posse, dentro da aura do bem (nem sempre tão bem) privado (ou seja, particular, que não é função pública. que é reservado para certas pessoas. que diz respeito particularmente ao indivíduo. que sofre alguma privação.  A rua, sendo parte constituinte do que devemos encarar como bem comum, sendo esse mediado pela conduta coletiva na gestão do domínio público, ou seja, que se refere ao povo em geral, aquilo que deve ser do interesse de todos. relativo ao governo de um país. a noção popular de cidadania, porém, aquilo que é de todos, da forma como o mundo se relaciona, cria um sentimento de unidade  e pertencimento exageradamente transitório. Nesse sentido, a arte e o trabalho de ressignificar o espaço público, insere outras perspectivas ao elemento privado, que pode reger novas formas de se relacionar e produzir seu domínio, esse que se configura pelo ato de estar presente nos espaços, contribuindo para o seu desenvolvimento. O uso do espaço público, parece fazer existir uma concessão provisória do uso do lugar, pois esse é intitulável, então, os meios e valores que passam a reger esse lugar, é como cada um se relaciona com o mesmo. Por isso a ação que vocês tem desenvolvido, é tão preciosa, pois ela alimenta uma tecnologia para o desenvolvimento social, a partir de uma base de empoderamento das pessoas que lá estão, contribuindo para uma dimensão mais ampla do humano, e do que pode ser feito no espaço, que em cada momento do dia, exerce seus próprios sentidos, produzindo múltiplas relações com o lugar e com as pessoas, que se amplifica através do sentimento e consciência de quem o interpreta, pois esse observador/interventor, pode olhar o lugar, como um espaço de transito em um momento do dia, assim como pode olhar, como um não lugar a noite. Mas essa relação só ganha expressão e exito reflexivo e em certo nível, pratico, quando saímos dessa relação passiva de observador que supõe, entramos no espaço tentando entender sua dinâmica e linguagem, pois respeitando os códigos já criados no espaço onde as pessoas (mesmo que transitórias) estão criando sua identidade local, com suas expressões, sentimentos, desilusões e podemos e devemos considerar, sonhos. Assim, passamos sem passar pelo presente deixando-o como um passado imemorável. E nesse ato de produção de memória, de contribuir para a sua significação afetiva, se produz o essencial, afinal, tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo.
Se a cidade estava sonhando, então ela estava dormindo. E eu não temo cidades que dormem esparramadas e inconscientes ao redor de seus rios e estuários, como gatos sob o luar. Cidades adormecidas são criaturas domadas e inofensivas. O que eu temo e desejo é que um dia as cidades acordem. Pois será o dia em que elas irão se levantar.
citações e reflexão:
Samir Raoni – Tinta de Vida

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